Monday, January 22, 2007

A Vítima Habituada

A vítima habituada não se julga vítima, ela aceita a realidade agressora e reage com conformismo á situação. É um problema complexo, especialmente porque o agressor tambem é habituado, e passa a não ser agressor, por acção (ou falta dela) da vítima, o que cria uma situação cuja solução tem de ser radical.
Reparo que a nossa sociedade, cada vez mais, se torna vítima habituada de vários males. Mas um deles atinge-me particularmente.
Todos nós aceitamos que a política seja um meio desonesto. Pois conformamo-nos com essa situação, e aceitamos essa realidade. Mas não faz sentido que assim seja. Conformamo-nos com uma realidade absurda.
Verifica-se, na minha opinião, um fenómeno entristecedor: em todos os debates de natureza política, os intervenientes não argumentam a favor da resolução do problema mas sim, em favor do seu lado da discussão. O que elimina a existencia de discussão. São demagogos.
Demagia são tácticas políticas para manipular um grupo de pessoas a chegar a uma conclusão. Quer esta solução seja correcta quer não. Ora, eu não duvido que cada político pense que a sua solução é a melhor. Mas em vez de argumentar lógicamente para a demonstração disso mesmo, procedem a uma tentativa de manipulação do povo. Escolhem meias verdades, falsos argumentos e tentativas de manipulação, a deixar a razão falar por si própria, pois não é esse o seu objectivo: estar correcto; o seu objectivo é GANHAR.
Verifica -se desde as campanhas a favor e contra a despenalização da interrupção voluntária da gravidez até ao próprio discurso político de cada partido. O objectivo é vencer, não melhorar. Qual a razão de, até hoje, nunca ter visto um político aceitar um argumento opositor? Pois o objectivo é vencer. Refuta-se tudo, vale tudo, diz-se tudo.
Mas o povo não se ofende, o povo não se revolta, o povo não grita, não pula, não se sente ofendido! Aceita. Conforma-se...
No entanto os políticos não são os responsáveis. Eles apenas chegaram á conclusão que é assim que se consegue chegar onde eles querem chegar, pois o povo assim o permitiu.
Os responsáveis pela situação são quem permitiu que alguém que é desonesto mantenha a sua credibilidade. Mas o dano está feito. Reconheço que a solução não é nem fácil nem óbvia. Mas duma coisa tenho a certeza, não nos podemos esquecer do significado das coisas, e nunca devemos deixar que a nossa percepcão da realidade se torne "habituada".
É um ultraje! E não nos podemos esquecer disso.

2 comments:

garibaldov said...

Parece-me a mim que depois de uma fase mais agitada da história de portugal, como foram os primeiros anos depois do 25 de abril, entrámos numa fase de tentativa de por em prática a liberdade de expressão e reivindicação de direitos...Ainda estamos á espera que isso realmente aconteça...
Muitas greves, muitos buzinões, muita conversa e muito barulho e nada disto mudou o curso do país.A unica coisa que temos é o direito de votar e responder a sondagens. Todas as outras manifestações(à excepção do trabalho dos sindicatos, cujo veredicto em termos de conquistar ou apenas atrasar está ainda por definir) e vontades de intervir nas decisões políticas foram meras ilusões, eventos sociais sem efectividade e apenas tendo como resultado, a perda de tempo e o alívio da consciência de certos frustrados que julgam estar realmente a dar o seu contributo e não se apercebem que são apenas "placebo".
Até mesmo aqueles que se consideram não-conformistas e que procuram algo melhor podem não passar de outra espécie de "vítimas habituadas" onde não excluo a hipótese de eu poder estar incluído.
Portanto, acho complicado saber como sair dessa condição ou do risco de cair nela, mas é estupido desistir de tentar...

Inha said...

É verdade que em Portugal a situação se está a tornar absurda mas penso que o desinteresse pela sociedade é uma tendência recorrente nas sociedades ditas "desenvolvidas".
Não existe só uma razão para esta tendência mas grande parte reside na mudança dos objectivos da sociedade. Vivemos numa sociedade em que se fumenta a individualização das pessoas, o alcançar de objectivos a qualquer custo, no fundo estamos a criar nas pessoas a ideia de que são as indiferentes as suas acções porque todos temos o "direito" de ser felizes. O problema é que a noção de felicidade foi estabelecida há muito pela sociedade como um bem económico, e acredito que este estado de estupidificação foi grandemente induzido pelas instituições que hoje em dia nos trantam como se fossemos estúpidos.
Olhando agora para a situação portuguesa, podemos olhar para o idealismo vivido nos tempos da revolução não só como uma necessidade de liberdade nacional mas, mais uma vez com uma tendência vivida noutros países (note-se que nesta década se verificaram as principais revoluções de costumes do século, senão mesmo de toda a história). Hoje as pessoas nem sentem necessidade de ansear por liberdade por estarem convencidas de a terem alcançado no dia 25 de Abril de 1974 e acima de tudo não sabem exercer os seus direitos e liberdades. Esta inaptidão para o uso da pouca margem de manobra que nos dão, é ainda consequência de 40 anos sem poder exercer direitos básicos, mas também fruto da estupidificação de que temos sido alvo.
As manifestações, greves e barulho que se têm feito ouvir ao longo destes anos têm vindo a perder a força acima de tudo por serem unicamente viradas para os umbigos de cada um dos manifestantes, perdendo assim muita da legitimidade. Até porque, num país em que as pessoas estão cada vez mais desinteressadas pela estrutura da sociedade, as causas e idealismos não se vão conseguir apoiar mutuamente e, portanto, perder muita da sua força porque, no fundo, isto é o salve-se quem puder!
Por detrás desta umbiguice da sociedade estão, claro, os estratos que orientam a nossa sociedade, nomeadamente a classe política, que habitualmente elevamos a um estatuto superior ao de qualquer comum português, por vezes até de intocabilidade, esquecendo-nos de que todos eles são funcionários ao nosso serviço, não de mim ou do meu vizinho em específico, mas ao serviço do estado, tendo como principal função a construção e regularização de uma sociedade melhor. Como sabemos não é isto que se passa mas, mais uma vez deve-se à nossa incapacidade como sociedade de nos sentirmos importantes, de sabermos que a sociedade se constrói unicamente para nós, não para o individuo, mas para a própria sociedade como forma colectiva.
Há que tomar consciência dos direitos e liberdades de cada individuo, mas há também que ganhar um interesse pela vida em sociedade e pelos valores de respeito pelo próximo que ela exige, só desta forma poderemos ganhar consciência do nosso poder como sociedade para nos mudamos a nós mesmos e especialmente para não nos deixarmos calar e estupidificar.