Friday, January 19, 2007

Palavra e Liberdade

Existe Liberdade nas Palavras?E podem existir Palavras em Liberdade?


Ainda na calha do post "Iluminismo e Anarquia", a questão da liberdade foi tida como vaga e se calhar em várias vertentes, fútil e sobrevalorizada, ao que eu admito ter falado dela como se algo de imprescindível se tratasse.
Isso está relacionado, sem dúvida, à componente emotiva que ficou de outros tempos em que a luta por ela significou algo de concrecto.
Deparamo-nos com o problema das ideias universais que os nominalistas na idade média resolveram na forma: "todas as palavras que nos são comuns são apenas sons, não vale a pena agarrarmo-nos elas, como se traduzissem algo real" opinião que faz o seu sentido, a meu ver, não implicando isso que ache que se deva ficar por aí.Acho que podemos caminhar para o conceitualismo, que vê as ideias universais como construções na nossa mente, aproximadas da realidade e que consiste noutra solução para a questão "afinal, que raio têm as palavras a ver com a realidade?"
Muita gente prefere pensar que "as palavras têm o sentido que lhes quiseres dar".Eu acho que isso só acontece porque as pessoas não são bem ensinadas, nem existe preocupação suficiente em esclarecer o verdadeiro significado dos conceitos e palavras nem a possível razão da sua existência.As palavras são-nos apresentadas sem a mínima preocupação em justificar porquê, ao que durante a vida nos vamos agarrando a elas, dando-lhes significados fortemente emotivos que derivam da nossa experiência individual ou partilhada com os nossos amigos.
Ao nos confrontarmos com outra pessoa numa discussão corremos a risco de interpretar mal certas coisas que são ditas por ela, não porque a intenção dela era má mas porque estamos habituados a usar outras palavras para exprimir o que estamos a ouvir.Cada um tem a sua tendência e tecnicismo próprio para usar certo tipo de termos, o que pode provocar desentendimentos, mesmo que todos queiram dizer o mesmo.No português, este facto chega a ser desesperante, chegando ao ponto de um interveniente numa conversa interromper toda a gente para repetir o que foi dito mas numa forma que é mais agradável ao seu ouvido.
É um facto que a língua portuguesa e as demais derivadas do latim são línguas complexas, mas usemos essa complexidade ou mesmo ambiguidade(principalmente ambiguidade) para escrever poesia e literatura e não para debater temas.

Nunca nos poderemos livrar totalmente da situação "estar preso às palavras", sensação que favorece a tendência para as pessoas fugirem a um consenso em relação ao seu significado, o que é uma demonstração de uma saudável vontade de liberdade, ainda que inútil.
É para mim, imperativo, livrarmo-nos da necessidade de recorrer à metafísica e a conceitos abstractos
(que podem querer dizer muita coisa) das quais muitos se aproveitam para impor uma opinião e que chegam a usar como argumentos de autoridade, tal é o seu peso emotivo (Deus, Amor, Felicidade, Liberdade, etc)sendo a Liberdade o conceito mais ambiguo e paradoxal pois temos de nos livrar da necessidade dela, para alguma vez podermos vir a tê-la.Ou seja, a liberdade não pode existir como algo objectivo e definido, pois essa limitação será uma contradição no termo.E assim como a Liberdade, os outros conceitos abstractos que enumerei também não são objectivos.Logo falar sobre eles não nos levará a nenhuma conclusão evidente.

Arrisco-me mesmo a dizer que a liberdade só é possível, para quem se conformar com a sua não-existência, tal como para atingir outras realidades supostamente metafísicas.
E essa farsa do livre arbítrio?Como raio se define esse conceito inventado pela igreja para justificar a existência da prática do mal?Eu sou o que sou, pela minha natureza? Ou pela minha vontade? E qual a verdadeira diferença entre as duas?

Que tenhamos então, acesso a essas duas dimensões da vida e da sociedade(a livre e a condicionada, a regrada e a desregrada...) e que saibamos distinguir quando queremos que uma ideia seja clara e quando queremos deixar a imaginação ou sensibilidade actuar sobre o significado das palavras, sons ou imagens.Nunca iremos controlar totalmente essas duas dimensões nem evitar que uma desemboque na outra, mas podemos apurar a nossa consciência no sentido de nos apercebermos em qual das dimensões estamos em cada altura(eu, por exemplo, neste texto, oscilo entre as duas), podendo tirar o melhor partido dela, nesse momento.Isso, para mim, é liberdade.

2 comments:

Claudia said...

Conseguirá o Homem revelar-se, para além da estrada das palavras? Caminho esse universalmente usado para nos aproximar-nos? Penso que sim. Tal como o universo pessoal que cada um encerra que contém muito mais do que pode ser revelado, também as palavras nao chegam.Não tenho dúvidas.
Se a tentativa do autoconhecimento e da inter-realção com o mundo tem como ponto de partida ideias, conceitos, formas e cores, pelos nossos ansiães definidos, essa tarefa está basicamente facilitada. Mas será que tudo isso nos basta? Mais uma vez, reitero a minha convicção: Não!
Descrever o mundo através do sentido que as palavras encerram é uma tarefa, por vezes ingrata, por vezes gloriosa, outras até capciosa. Considero que o preenchimento desses conceitos adquiridos foram por nós interpretados. Nessa medida cada um de nós terá o SEU entendimento. A linguagem das palavras passa a ser subjectiva. Claro! Podemos afirmar, definir, rejeitar e admirar, mas com sentidos distintos, o nosso universo e o dos outros. Pois é precisamente aí que a palavra Liberdade é chamada. Ao iniciramos um qualquer raciocínio, procurando dentro de nós aquilo que o conceito nos invoca, tendo a capacidade de nos afastarmos dele centrando-nos em nós, então estaremos a usar a nossa capacidade e disponibilidade de "criação" desse mesmo conceito. Ora ai está a forma mais pessoal de definição de um conceito, que de abstracto se define, porém em concreto se irá concretizando. Pensar num ponto de partida - a palavra - a chegar à mesma palavra, não nos leva muito longe...nem dentro, nem fora de nós...Somos dotados dessa capacidade única : razão inetrlaçada com a emoção.
Podemos, porque somos capazes de ultrapassar as palavras, libertar-nos delas e usar o que quer que seja necessário para exprimir o pensamento mas sobretudo as emoções. Muitos afrimam ser essa a definição de Arte.
Ousemos pensar em nós independentes e Livres para Sermos, plenamente!

Pajero said...

Pior que não ter Liberdade nas Palavras, é não ter Liberdade no Pensamento.