Sunday, May 20, 2007

"Crer para Viver"

Depois de ter-me sujeitado, por curiosidade doentia e da qual me envergonho, aos argumentos e conselhos quer da Oprah como do famoso Dr.Phil, reparei que hoje em dia se aconselha as pessoas a acreditarem em "algo", não necessariamente em Deus, mas em alguma coisa. Como que fosse algo de necessário à existência humana acreditar em algo de superior a nós, ou à nossa existência. Estranhei um pouco este paradoxo estranho, de ver crentes numa determinada doutrina, a afirmarem que não é necessário acreditar no Deus deles, mas pelo menos encontrar um substituto. E então pus-me a pensar:
Porque será que devemos nós acreditar em algo?
Porque será que desde as tribos indígenas numa ilha deserta, aos Romanos, Gregos, Católicos, Muçulmanos, todos acreditam num Deus, ou em algo Superior a si mesmos?
Porque é que o ser humano é levado a Crer para Viver?
Será que existe mesmo uma necessidade inerente ao ser humano de acreditar em algo superior a si, que comanda os nossos destinos?

Primeiro acho que devo definir que, pessoalmente, eu acredito em respostas. Eu acredito que existem razões e causas para o que acontece. E que a procura dessas causas deve fazer sentido, independentemente da direcção em que me apontar, seja Deus, ou o fim do mundo.

Assim comecei a minha análise da questão, perguntando:
De onde surgiram as crenças?

Penso que nos tempos em que o intelecto humano ainda não estava totalmente desenvolvido, os seres humanos começaram a associar consequências com causas. E esta associação começou, associando causas passadas e consequências presentes, e movendo-se para causas presentes com consequências futuras. Assim ganhámos a capacidade de prever com alguma certeza o futuro. Consequentemente surgiu aquilo que eu chamo de espírito científico, também conhecido como curiosidade. Começou-se então a procurar as causas para as consequências que mais importavam ás pessoas naquela altura:
Porque é que morremos? Porque é que se dão terramotos? etc...
Desta procura de saber o porquê das coisas, surgram as primeiras crenças em seres superiores:
"Ao ofender o meu vizinho ele torna-se violento. Assim, da mesma forma: a Terra tremeu, pois ofendemo-la!"
Mas estas crenças respondem apenas ao espírito científico de cada um de nós... são respostas, mais nada.
Posso assim concluir que não existe na natureza humana uma necessidade de crer em algo, mas que aquilo que nos leva à religião não é nada mais do que aquilo a que eu chamo de espirito científico, a necessidade de saber o porquê das coisas, de obter respostas. Muito ironicamente o mesmo espírito que nega todas as crenças em entidades não lógicas, ou cientificamente provadas.

Continuei a minha análise e perguntei-me :
Assim, donde surgiram as religiões, e para que propósito?
Á medida que o tempo passava, alguns dos habitantes das sociedades tribais (ou qualquer outro tipo de sociedade), ganham, naturalmente, maior experiência e sabedoria, que lhes concedem maior respeito e credibilidade. Que por sua vez, lhes concedem, maior estatuto e autoridade.
Estes habitantes, têm a "sua" resposta, e essa resposta é estabelecida como verdadeira para toda a tribo, pois dado o estatuto e sabedoria dos velhos e sábios aldeões, nenhum dos outros aldeões encontra razões para duvidar dela. No entanto, dado os meios existentes naquela altura não serem os necessários para explicar o porquê de todos os acontecimentos verdadeiramente relevantes para um indivíduo, essa resposta não era absoluta, e provavelmente nem sequer era correcta. Mas isso tornou-se secundário quando surgiu um outro aldeão com uma outra resposta. Uma resposta que punha em perigo o estatuto dos aldeões velhos e sábios, e estes protegeram esse estatuto, calando essa nova resposta, independentemente do mérito da mesma.
E assim os velhos sábios ganharam a noção do poder que possuíam e da única coisa que os mantinha agarrados a esse poder:
A crença da tribo na "sua" resposta.
Assim surgiram as religiões, cuja principal natureza é serem uma ferramenta de poder utilizada pelos extractos sociais superiores para manter a sua credibilidade e estatuto.

Essas ferramentas foram sendo aperfeiçoadas e embelezadas. Assim ao analisarmos as crenças e religiões que mais se proliferaram, todas elas apelam ao descanso da nossa consciência. Existem em toda elas promessas de uma vida positiva, e de um futuro risonho, para aqueles que acreditam nos seus princípios. Quer seja acreditar no destino, ou no Karma, ou em Deus. Estas doutrinas transmitem um conjunto de limitações, de regras, que se seguidas, levam a um final positivo. Esta forma de embelezar o mundo em que nos inserimos, é apenas uma forma de atrair as pessoas à mensagem, pois elas QUEREM acreditar que tudo vai correr bem. Quando na realidade, isso não é algo que se possa prever.

Concluindo:
Dado hoje em dia o método científico conseguir estabelecer respostas para coisas que na altura da criação das religiões não era possível, elas têm de se ajustar e adaptar á esta nova realidade. E assim, procuram fomentar esta pseudo-necessidade, de um final feliz.Como se o ser humano não fosse capaz de assumir as suas responsabilidades, e viver a sua vida sem a promessa de um final que lhe seja satisfatório.
A verdade é que não existem finais felizes, apenas finais. E a tentativa de assegurar esse final feliz é uma exploração social da qual depende a existência das igrejas.

2 comments:

garibaldov said...

"A verdade é que não existem finais felizes, apenas finais."

Esta é ,para mim, a frase mais positiva do post, pois eu interpreto-a da seguinte forma:

O futuro está em aberto e assim o final das coisas que ainda existem também.Nem a morte deve ser dada como importante, porque uma vez que ainda não aconteceu, não deve comandar as nossas vidas.Tomemos nós o controle das nossas vidas em vez do medo da morte e do infurtúnio.

Só existe algo para acreditar:nós próprios e o momento presente.

Enquanto não acreditarmos nestas duas coisas, continuaremos a desresponsabilizarmo-nos pela nossa vida e a adiar essa responsabilidade para o amanhã, até que a vida acaba...de facto.

Claudia said...

Pertinente e cuiriosa é a quetão aqui levnatada, que a meu ver se resume á co-existência da ciência e das crenças como fundamento da vida humana.

O estpírito humano não é o resultado de uma lógca e tendência absoluta que se revela com exactidão e previsibilidade esperada.

È antes dotado de uma componente metafísica, individual e abstracta que o define na sua essência.

Todo espirito científico procura respostas comprováveis e universais que permitem tentar chegar à causa-consequência.

Trata-se de uma questao de segurança.

Por outro lado, parece-me que a ciência muitas vezes, apesar do seu reconhecido nível de desenvolvimento, não encontra todas as respostas ás suas incógnitas e dúvidas. Inquietações essas que levam a que o tal espírito científico seja facilmente aliciado com a possibilidade de uma resposta abstracta, metafísica - para além desta.

Seja qual for a religião a verdade é que o significado que esta tem para os povos é indiscutível, uma vez que também ela procura respostas.
A História comprova-o. Contribuitos esses que foram em prol da ciência,procurando igualmente essas repostas, pela segurança e afirmação das suas convicções não científicas.

Tudo o resto que está na base da razão e destino humanos, presnde-se com Fé.

A própria existênia de Deus é prova disso. Muitos são os consagrados cientistas que acreditam que o fim das repostas sem conteúdo está em Deus, que pela sua magnificência, se justifica e apresenta como a única possivel resposta.

Naturalmente que devemos admitir a tendência fácil do reconhecimento de algo exterior a nós que nos fundamenta e dá sentido. O perigo maior que daí pode advir é simplesmente, o de se negar a si próprio enquanto responsável pelos seus actos - sejam eles "bons" ou "maus" - sob o pretexto de uma certa moralidade que está a ser seguida.

Negando por esse motivo a sua verdadeira essência humana.

Considerando o estado "liberal" em que hoje proliferam as crenças e religiões, parece-me que essa é uma das mais prementes preocupações pessoais que devem existir na atitude de cada um.

A vida mais não deve ser que o somatório de todas as decisões que vamos tomando à medida em que temos de fazer escolhas.

Não há tempo perdido, há escolhas decididas.

Fruto de uma seleção individual e temporal, que é única e condiciona-nos para sempre. A História não se repete, constroi-se vivendo, escolhendo.

Rejeitando e aceitando as causas e as consequências dessas escolhas.

Nem a ciência é perfeita nem a religião é a salvação. Que não se confundam as duas e que se respeitem os limites de ambas de acordo com as seleções de cada um.

A fé, científica ou religiosa, é indissociável do ser.