Monday, November 5, 2007

Viagem pelo reino dos objectivos

Porque me questiono sobre a felicidade?...

O problema começa com o facto de se supor que a vida precisa de ter um sentido.Esta suposta necessidade é uma arma poderosíssima para quem precisa de atenção de outros no seio da sociedade...
"Venham, venham, eu tenho a solução para obtermos a felicidade, esse objectivo que se arranjou pra nos mantermos ocupados e orientados.Essa motivação que nos faz sentir seguros de que existem caminhos certos e errados, escolhas certas e erradas.E que devemos pensar nelas."Pobres coitados, esses que se dedicam a "preocupar" com a felicidade dos outros.Ainda não se aperceberam(ou talvez percebam...) que estão a fugir da mesma questão de que julgam tratar, superficial e protocoladamente...
Se começassem a pensar nessa mesma questão-a felicidade, a satisfação, a realização-eles próprios seriam atingidos pela infinidade de respostas possíveis que, pela sua vastidão, os deixaria perdidos...perdidos, mas conscientes, conscientes de que afinal, não existem tão claramente esses caminhos e respostas certas.Que como, o postador anterior disse e bem, a felicidade de uns pode ser a miséria de outros.Montaigne acompanha-o nessa ideia: "o lucro de um é o prejuízo de outro"
A ideia de uma sociedade solidária no meio de um mercado livre e competitivo é encantadora, mas óbviamente, um absurdo.Daí, que ainda faça algum sentido haver uma distinção clara entre a esquerda e a direita políticas, embora eu esteja a ficar com saudades de ouvir essa coisa:a esquerda(ou então, sou eu que ando surdo).

Em suma, andamos ás turras, aos encontrões em busca de respostas para o correcto, o certo, o ideal, aquilo que nos levará à satisfação, à felicidade.
Mas como também Montaigne dizia:"sei do que fujo, mas não sei o que procuro"-também a busca da felicidade é mais uma fuga do que uma perseguição-o que nós queremos é não ser infelizes...não deixa de ser nobre esse objectivo...mas no entanto e a meu ver, um pouco medíocre...

Será que se arranja algo melhor?Talvez.

Parecemos estar condenados a viver amarrados à necessidade de sentido.Olhamos à nossa volta, aprendemos o que é normal e sabido:comer, dormir e eventualmente morrer, mas esperamos encontrar algo mais(se calhar, nem todos), buscamos referências, buscamos lógica, coerência, buscamos segurança...encontramos palavras...Felicidade...

Ninguém sabe o significado, ao certo.O dicionário talvez também não ajude.Mas é essa, a armadilha e a salvação, simultaneamente.A existência de um sentido sem sentido.Uma solução sem aplicação.Um conceito aberto ou mais negativamente falando, vazio.Uma palavra que nos faz pensar em tudo menos no que ela significa.Pois como nada significa, tudo pode significar.Por isso, fugimos de onde ela parece não estar, achando que existe um sítio onde ela estará.Nessa movimentação esquecemo-nos, talvez, de procurar o que temos, o que nos deixaria parados.
Mas parados não podemos ficar...

Que solução?

Fazer da felicidade uma arte e uma criação nossa.Que não depende de uns serem mais ou menos que outros.Fazer da felicidade algo que não é mensurável.Algo deliberadamente sem sentido e sem significado.Se assim for, quem me pode encurralar nas malhas da dialética, da moral e das leis?

Esquecer a fuga defensiva do todo e abraçar a busca agressiva do nada.Inverter a vítima, inverter o culpado.Sermos nós os predadores(sonhadores) da felicidade e não, as presas(realistas e defensivas) do seu inverso.Pois defendermo-nos apenas nos promete não sermos infelizes, mas não nos promete a felicidade.

Busquemos a vontade...

Querer algo que não existe...implica, pelo menos, querer algo...

1 comment:

Cláudia said...

A necessidade de encerrar a busca pelas repostas, pela necessidade da explicação imediata da realidade das coisas e das pessoas, tem levado as pessoas a agirem por impulsos.Logo, por receio.

Parece-me necessariamente ligado ao quotidiano do fast-food e dos cartões de crédito, que estão sempre ao alcance do seu desejo.

Assim, foram sendo construidos igualmente os conceitos abstractos como a Felicidade e o Amor e a própria Verdade.

Tal como a Fé, os conceitos desta natureza não devem ser restringidos e limitados pelas referências que por todo o lado nos chegam. O preenchimento desse conceito, pela subjectividade que encerra deverá pela sua própria natureza ser individual.

Pertencemos a uma espécie de animais que acredita e vive com estes conceitos e mais, "in extremis", vive PARA OS CONQUISTAR.

Portanto, quando hoje lemos e assistimos por exemplo num episódio de telenovela, verificamos a resposta à provocação que atrás referi, do preenchimento dos conceitos abstractos mencionados.

Não será no minimo insultuoso sermos alvo de condicionamentos e até de restrições ás vinculações exemplares que outros, que não EU, constroem e declaram como universais um conceito INDIVIDUAL? E aqueles que os seguem, serão cordeiros ou pastores?

Mas afinal de contas, são os conceitos que me atingem, ou sou eu que os preencho?

Tal como na Fé, que tenho sem explicações e preocupações sobre a sua validade cientifica, enquanto eu nela acreditar estou segura, não porque quero mas porque a sinto sem necessidade de justificações.

Acreditar é já o primeiro passo para a conquista da existência, pois mais importante do que existir pode ser acreditar que pode existir.

O que não nos pára faz-nos mexer...